sexta-feira, 10 de julho de 2009

Alta-costura parisiense é marcada pelo possível fim de Lacroix, e Chanel mira na China

A temporada de alta-costura parisiense, inverno 2009 e 2010, aconteceu na última semana, de 6 a 8 de julho, e foi marcada pela sombra do possível fechamento da marca de Christian Lacroix.

Seu desfile, apontado como um dos melhores pelo "The New York Times" e outras revistas especializadas em moda, terminou entre lágrimas e com a platéia (cerca de 250 convidados) num grande abraço coletivo com o estilista, que voltou para agradecer os aplausos.
  • AFP

    Lacroix é aplaudido ao fim de seu desfile em Paris (7/7/2009


Lacroix apresentou um desfile feito todo com estoques de tecido da marca, montado e finalizado com a ajuda de amigos, e cujas modelos não cobraram cachê. Se o conglomerado que detém a marca, o Falic Group (administrador de 100 duty-frees aeroportuários nos Estados Unidos), não encontrar um comprador para a Christian Lacroix, a marca deverá ser fechada ainda em julho e esse terá sido seu último desfile.

Um dos grandes criadores de moda a surgir nos anos 80, Lacroix tem seu nome associado a coleções de uma feminilidade marcante e às saias e vestido "pouf", ou balonê, que ele celebrizou no final daquela década.

Outros desfiles elogiados na temporada foram o de Karl Lagerfeld para a Chanel, o da Dior, assinado por John Galliano, e o de Jean Paul Gaultier, que utilizou sua marca-registrada, o humor, para reler o glamour de Hollywood em sua coleção.
  • AFP/AFP/AFP

    Três looks do desfile de alta-costura de Jean Paul Gaultier


Lagerfeld mostrou a coleção da Chanel no fim de tarde, horário escolhido por ele, um gesto em que muitos viram uma metáfora para o "ocaso da alta-costura". Ao som da cantora inglesa La Roux e sua releitura da eletrônica dos anos 80, o desfile teve como tônica os vestidos com a parte de trás mais longa do que a da frente, em proporções diversas, ou com uma espécie de cauda plana sobreposta. Vistos de frente, a silhueta junto ao corpo de algumas peças lembrava a de vestidos chineses.

"A semelhança com o vestido chinês (cheongsam) não parece ser coincidência. A alta-costura está lutando para sobreviver, as casas de elite parisienses querem ganhar corações, mentes e carteiras dos abastados clientes chineses, que estão preenchendo a lacuna deixada pelos (varejistas) americanos, com seus pedidos cada vez mais minguados", teorizou o jornal inglês "The Guardian".
  • AFP/Reuters/AFP

    Três looks da coleção de alta-costura da Chanel


Mesmo tendo elogiado o desfile, Cathy Horin, colunista de moda do "The New York Times", diz em seu texto que, a princípio, teve vontade de "pegar uma tesoura" e cortar fora a cauda dos vestidos. "Depois, o grânde gênio de Lagerfeld começou a aparecer", ela completa, "num desfile deslumbrante".

Galliano apresentou na Dior uma coleção cheia de rigor e suntuosidade, com lingeries aparentes e muitos acabamentos em tule. O desfile contou com as modelos brasileiras Carol Trentini, Vivi Orth e Thana Khunen. Para Horin, a coleção careceu de "refinamento". "(É uma coleção) bem burguesa. Ela nem tem um jogo de cintura moderno, nem tem bom gosto ao sugerir a sedução".

APERTO
O possível fechamento da Lacroix é um acontecimento emblemático para esta temporada de alta-costura, segmento que vem de uma série de quebradeiras entre suas maisons, nos últimos anos. Para o "The New York Times", o futuro da alta-costura depende de casas sólidas, como Dior e Chanel (as menos afetadas pela crise), e de nomes bem estabelecidos, como Galliano, Lagerfeld e Gaultier.
  • AFP

    Três looks do desfile de alta-costura de John Galliano


ALTA-COSTURA
O nome alta-costura é protegido por lei na França, e, para serem considerados de alta-costura, os estilistas que participam dos desfiles devem atender a requisitos estabelecidos em 1945 (revisados em 1992) pela Câmara de Comércio e da Indústria de Paris.

Tais obrigações incluem que os modelos sejam feitos sob encomenda, com pelo menos uma prova; que o estilista tenha pelo menos 15 funcionários em seu ateliê sediado em Paris; que a marca participe sempre dos dois desfiles anuais e que apresente pelo menos 35 entradas, com roupas para a noite e para o dia.

As temporadas de alta-costura não obedecem ao calendário sazonal do prêt-à-porter, que é mostrado com cerca de um ano de antecedência à estação a que se destina. A alta-costura acontece com apenas seis meses de antecedência.

(Com agências internacionais)

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